Hoje lembrei-me das palavras que um Senhor, A.S.S. de Espinho, escreveu num jornal diário em 2001. Porque as subscrevo e porque se mantêm actuais, aqui as deixo. O título era exctamente o que aqui coloco.
"Peço desculpa por ser um cidadão normal, cumpridor e respeitador das leis e dos costumes. Não sou homossexual, transsexual, bissexual, prostituto ou marginal. Não pratico sexo de risco e (também) por isso não tenho sida. Não fumo charros, não me injecto e não necessito de frequentar clínicas de recuperação de drogados e dar cabo de mim, da minha família e do mundo que conheço. Ando devagar, sempre de cinto colocado, paro nos semáforos e não acelero no amarelo, nem me atiro sobre quem passa nas passadeiras. Bebo apenas o álcool que posso suportar com absoluta lucidez, não fumo, a não ser por brincadeira, não tomo antidepressivos, anabolizantes, euforizantes ou afins. Pago a totalidade dos meus impostos, respeito o princípio da autoridade e a própria, embora me apetecesse torcer o pescoço de alguns agentes da dita, e cumpro as decisões de quem dependo profissionalmente, mas às vezes não me apetecia.
Sou casado, tenho dois filhos e uma família funcional e feliz. Amo os meus pais e sinto que lhes devo quase tudo o que sou. E tento aceitar os outros como são, embora, por vezes isso seja difícil, doloroso e penoso.
Não pratico crimes de qualquer natureza, e muito menos de colarinho branco. Nunca passei facturas falsas nem nunca utilizei o dinheiro de outros em meu proveito. Não me meto em, nem armo, confusões ou desacatos em público ou em privado, sou conciliador e acredito nas virtudes da razão.
Nunca fiz uma viagem fantasma, e, as poucas que fiz, paguei-as do meu bolso. Exerço sempre o meu dever cívico de votar e finjo acreditar que isso mudará algo. Nunca participei num desses concursos imbecis da televisão, nem vegetei na “casa mais conhecida do país”.
Nem sempre tenho razão e engano-me muitas vezes… E tento ler (muito), embora seja selectivo nas leituras que faço. E quero valorizar-me e aprender um pouco mais e melhor que o que me ensina a insuportável indigência intelectual e moral que se vê, que se sente e que se respira todos os dias e por todo o lado.
Sinto-me quase sozinho, mas sei que o não estou. Entretanto, peço desculpa pelo que sou."
"Dispomos de todas as possibilidades, da mais absoluta liberdade de escolha. Como num livro, onde cada letra permanece para sempre na página, a nossa consciência tem o direito de decidir o que quer ler e o que prefere deixar de parte." (Richard Bach)
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02 abril 2008
31 outubro 2007
06 abril 2007
No país das cerejas
O texto que se segue, publicado num jornal diário em 15 de Junho de 2003, foi escrito por um Senhor de Portalegre a quem eu peço licença para divulgar dada a sua actualidade, pelo menos neste país.
"A cereja é um apreciado e bonito fruto que, para mim, sempre teve alguns senãos. Tem caroço, um tanto desproporcional relativamente ao tamanho da parte comestível, nem sempre é doce, às vezes está podre e muitas têm bicho. Para os que a produzem é de difícil e até perigosa apanha, é muito sujeita às intempéries e tem o que se chama “anos maus”, que, infelizmente, pelas queixas que sempre tenho ouvido, me parece serem praticamente todos.
Mas, esquecidos os senãos, a cereja é, de longe, o fruto que mais admiro e tudo porque tem o tipo de pé que tem, que a une a uma ou mais companheiras que também o possuam. Vivem ligadas pelos respectivos pés, regra geral, aos pares.
A cereja é um fruto que, através do pé, compartilha a sua vida, e que, depois de colhida, intensifica essa sua faceta social emaranhando-se, sempre pelo pé, com todas as outras que também foram apanhadas.
Quase tão sociais como as cerejas, só conheço os morangos e os abacaxis, que vivem, muito apertadinhos em aquénios, e as bananas e as uvas que habitam mais desafogadamente em cachos, quase nada ou pouco se tocando. Todos estes, todavia, vivem em clãs isolados afastados dos demais.
Se os portugueses fossem fruta e eu fosse um agente policial interessado, para exponenciar a minha eficiência, gostaria que todos eles fossem cerejas, mas cerejas com pé. Tinha a vida facilitada e acabavam, em breve, todas as associações de malfeitores, por mais secretas e mafiosas que fossem.
Dou dois ou três exemplos para que entendam as razões dessa minha aparentemente estranha escolha.
Suponhamos que temos um cesto cheio de portugueses que tendo passado do reino animal ao vegetal, se tornaram cerejas sem terem perdido o pé. Peguem numa delas, que sabem que leva uma vida inexplicavelmente flauteada. Vêem, imediatamente, que a maior parte das suas congéneres, isto é, com pés homólogos, vem agarrada entre si e que o cesto fica, pode-se dizer, vazio.
Voltem a pôr todas no cesto, bem misturadas com as que lá tinham restado. Agarrem agora noutra de uma que tem um BM dos grandes e não paga um cêntimo ao fisco. A cesta leva um desbaste e, praticamente, ficam lá só, muito espremidos entre si, mas isolados, os cachos e os aquénios.
Continuem com outros exercícios, voltando, no fim da cada um, sempre a meter tudo no cesto sem nunca esquecerem de previamente misturar muito bem. Peguem, por exemplo, numa cereja pedófila, numa cabecilha da droga, noutra que gostava de ter nascido no Brasil, etc, etc.
Vão ver que o cesto, em todos os casos, quase se esvazia e que uma meia dúzia delas, teimosamente, apesar de terem pé, nunca de lá sai. Se repararem mais atentamente, notarão que essa meia dúzia é sempre a mesma, que anda obrigada a pagar os seus impostos e a fazer tudo para sempre ser mirrada, azeda, bichosa e, fundamentalmente sem pé, para nunca ser apanhada nem ainda mais comida."
"A cereja é um apreciado e bonito fruto que, para mim, sempre teve alguns senãos. Tem caroço, um tanto desproporcional relativamente ao tamanho da parte comestível, nem sempre é doce, às vezes está podre e muitas têm bicho. Para os que a produzem é de difícil e até perigosa apanha, é muito sujeita às intempéries e tem o que se chama “anos maus”, que, infelizmente, pelas queixas que sempre tenho ouvido, me parece serem praticamente todos.
Mas, esquecidos os senãos, a cereja é, de longe, o fruto que mais admiro e tudo porque tem o tipo de pé que tem, que a une a uma ou mais companheiras que também o possuam. Vivem ligadas pelos respectivos pés, regra geral, aos pares.
A cereja é um fruto que, através do pé, compartilha a sua vida, e que, depois de colhida, intensifica essa sua faceta social emaranhando-se, sempre pelo pé, com todas as outras que também foram apanhadas.
Quase tão sociais como as cerejas, só conheço os morangos e os abacaxis, que vivem, muito apertadinhos em aquénios, e as bananas e as uvas que habitam mais desafogadamente em cachos, quase nada ou pouco se tocando. Todos estes, todavia, vivem em clãs isolados afastados dos demais.
Se os portugueses fossem fruta e eu fosse um agente policial interessado, para exponenciar a minha eficiência, gostaria que todos eles fossem cerejas, mas cerejas com pé. Tinha a vida facilitada e acabavam, em breve, todas as associações de malfeitores, por mais secretas e mafiosas que fossem.
Dou dois ou três exemplos para que entendam as razões dessa minha aparentemente estranha escolha.
Suponhamos que temos um cesto cheio de portugueses que tendo passado do reino animal ao vegetal, se tornaram cerejas sem terem perdido o pé. Peguem numa delas, que sabem que leva uma vida inexplicavelmente flauteada. Vêem, imediatamente, que a maior parte das suas congéneres, isto é, com pés homólogos, vem agarrada entre si e que o cesto fica, pode-se dizer, vazio.
Voltem a pôr todas no cesto, bem misturadas com as que lá tinham restado. Agarrem agora noutra de uma que tem um BM dos grandes e não paga um cêntimo ao fisco. A cesta leva um desbaste e, praticamente, ficam lá só, muito espremidos entre si, mas isolados, os cachos e os aquénios.
Continuem com outros exercícios, voltando, no fim da cada um, sempre a meter tudo no cesto sem nunca esquecerem de previamente misturar muito bem. Peguem, por exemplo, numa cereja pedófila, numa cabecilha da droga, noutra que gostava de ter nascido no Brasil, etc, etc.
Vão ver que o cesto, em todos os casos, quase se esvazia e que uma meia dúzia delas, teimosamente, apesar de terem pé, nunca de lá sai. Se repararem mais atentamente, notarão que essa meia dúzia é sempre a mesma, que anda obrigada a pagar os seus impostos e a fazer tudo para sempre ser mirrada, azeda, bichosa e, fundamentalmente sem pé, para nunca ser apanhada nem ainda mais comida."
05 janeiro 2007
Os cortesãos
"Com frequência, no círculo íntimo dos poderosos, políticos, empresários e grandes figuras universitárias, vemos personagens medíocres ou até mesmo miseráveis. E parece impossível que pessoas capazes e inteligentes possam ter confiança nelas, confiar-lhes trabalhos delicados e deixar que surjam ao exterior como seus porta-vozes, que os representem.
...
Em volta do político há sempre numerosos postulantes: advogados sem clientela, arquitectos desempregados, intelectuais famosos. Cercam-no pacientes, insistentes. Um dia, o político encontra-se em dificuldades, sozinho, tem necessidade de ajuda, dirige-se a um deles. Por que não? Ele nem pede nada, está disponível, faria o que lhe pedisse. E assim começa a relação. Não gosta dele, mas usa-o. Não o estima, mas pouco a pouco acaba por habituar-se. Com o tempo chega, às vezes, a depender dele, porque lhe deu a forma de conhecer demasiados segredos."
Francesco Alberoni em "O Optimismo"
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Em volta do político há sempre numerosos postulantes: advogados sem clientela, arquitectos desempregados, intelectuais famosos. Cercam-no pacientes, insistentes. Um dia, o político encontra-se em dificuldades, sozinho, tem necessidade de ajuda, dirige-se a um deles. Por que não? Ele nem pede nada, está disponível, faria o que lhe pedisse. E assim começa a relação. Não gosta dele, mas usa-o. Não o estima, mas pouco a pouco acaba por habituar-se. Com o tempo chega, às vezes, a depender dele, porque lhe deu a forma de conhecer demasiados segredos."
Francesco Alberoni em "O Optimismo"
01 janeiro 2007
C'est la vie...
03 dezembro 2006
As marcas do tempo
"... Eu olhava para o corpo de Hannah, repousado ao pé de mim. A pele, aqui e ali, fazia lembrar já o pergaminho mas isso não me afastava dela. Sentia uma espécie de respeito, um respeito que se tem por uma coisa que se enriqueceu com o lento trabalho do tempo e, por isso, ressuma paz, serenidade, ternura e a sabedoria de quem foi capaz de testemunhar histórias de generosidade, de dor, de prazer. Os meus olhos não conseguiam separar aquele corpo do tempo que o tinha feito assim e enternecia-me com aquelas rugas, com aquelas marcas de filhos gerados, com aquele peito caído como uma vénia a quem está pronto a amá-lo. Tive um arrepio de comoção e disse-lhe:
- É tão bonito um corpo assim como o teu, assim escrito com as coisas do tempo e da vida..."
Devíamos ser capazes de assistir ao envelhecimento dos que nos são queridos com esta visão de Alçada Baptista.
- É tão bonito um corpo assim como o teu, assim escrito com as coisas do tempo e da vida..."
Devíamos ser capazes de assistir ao envelhecimento dos que nos são queridos com esta visão de Alçada Baptista.
22 novembro 2006
A uma amiga
"... A amizade começa como um acto sem continuidade, um salto. É um momento em que sentimos uma forte simpatia, um interesse, sentimos um afinidade em relação a uma pessoa. ...
«A amizade é uma filigrana de encontros». NInguém sabe antecipadamente se haverá ou não um encontro. ...
Um encontro é em si mesmo um momento de felicidade, de grande intensidade vital. É um momento em que compreendemos algo de nós próprios e do mundo. No encontro sentimos que a outra pessoa nos ajuda a caminhar na direcção correcta. ..."
Francesco Alberoni em A AMIZADE
«A amizade é uma filigrana de encontros». NInguém sabe antecipadamente se haverá ou não um encontro. ...
Um encontro é em si mesmo um momento de felicidade, de grande intensidade vital. É um momento em que compreendemos algo de nós próprios e do mundo. No encontro sentimos que a outra pessoa nos ajuda a caminhar na direcção correcta. ..."
Francesco Alberoni em A AMIZADE
05 novembro 2006
Alguém escreveu
"Confesso que não desgosto nada de estar assim, a fazer de psicanalisado sem psicanalista, a tentar destrinçar a meada das herdadas construções do mundo que sinto enoveladas por dentro de mim. ... Estou com cinquenta e oito anos e tenho que reconhecer que passei a maior parte da minha vida a limpar o meu próprio terreno de construções clandestinas, de obras feitas sem licença... "
Alçada Baptista em O RISO DE DEUS
Gostaria de ter sido eu a escrever. Sairiam exactamente as mesmas palavras.
Alçada Baptista em O RISO DE DEUS
Gostaria de ter sido eu a escrever. Sairiam exactamente as mesmas palavras.
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