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30 maio 2009

As flores do 8º E

Quando me reformei, decidi nunca mais voltar à escola onde leccionei 20 anos. Decisão que não é fácil já que deixei lá pessoas que sempre admirei, e continuo a admirar, e deixei os meus alunos mas as atitudes do Conselho Executivo e da Ministra foram sendo do mesmo teor, pelo que a consideração que ambos me merecem é a mesma.

Mas, esta semana, os alunos do 8º E, a quem eu leccionava a disciplina de Ciências Físico-Químicas e a área curricular não disciplinar de Área de Projecto, telefonaram-me a pedir para ir ver a apresentação do resultado do projecto iniciado por mim e continuado pelo professor que me substituiu. Além do blog “Os vinte e a Terra” eles deram corpo a uma revista na qual duas páginas eram ocupadas por uma entrevista que me fizeram. Não podia desiludir os meus alunos e, ontem à noite, enchi-me de coragem e lá voltei a entrar naquela escola.
A apresentação deles foi muito interessante e, no final, chamaram-me ao palco, bem como ao professor que me substituiu para darem um ramo de flores a cada um como agradecimento pelo apoio na realização do projecto. Foi uma surpresa que me deixou sem fala e com o coração cheio de alegria.


Mais uma medalha que ficará guardada no coração, na revista e na fotografia.

10 dezembro 2008

Hoje...

... escrevi uma carta aberta à Ministra da Educação. Está publicada no Destramar.

30 novembro 2008

E as medalhas continuam

Professora, espero que tenha muitas felicidades pela vida fora e que continue a ser a pessoa que sempre foi .
Obrigada por todo o empenho, dedicação e amizade da sua parte .

Beijinhos, muitas alegrias.

Ana Correia

27 novembro 2008

Mais uma medalha

Chegou agora por mail mais um prémio para mim. deixou-me de lágrima no olho mas com o meu ego nas alturas e a sensação do ver cumprido.

"Soube ontem ao último tempo que a professora tinha recebido a carta da reforma. Vou ser sincero, fiquei muito triste por perder uma das melhores professoras de sempre.Paciente, simpatica, honesta, humilde.... são muitas das caracteristica que a professora tem.A escola perdeu uma das melhores professoras ao serviço.
Pessoalmente n estou triste por perder uma professora mas sim estou triste por ter perdido uma grande amiga que me ajudou sempre.Toda a turma ficou um bocado triste (embora querendo desfarçar através de sorrisos e risos), pois tem a consciencia que vai ser dificil substituir uma professora como a s'tora.Diz-se que ninguem é insubstituivel, mas a professora é das poucas pessoas que não podem substituidas por nada deste mundo.
Aqui está á minha despedida muito humilde, não é que desejaria dar á professora pois o que lhe queria dar está para além dos meus alcances.Só deixo votos de felicidade e desejos que um dia nos voltemos a encontrar.
Muitos beijos e abraços

Bruno nº7 8ºB"

Foi um prazer ter conhecido o Bruno e um privilégio ter sido sua professora.

26 novembro 2008

Eu saio com os meus prémios

Finalmente chegou a aposentação. E, neste último dia, os alunos da turma com que tive aulas deixaram-me este prémio.

Vale a pena clicar para ler
Este, e outros prémios que tenho recebido ao longo dos anos, dão sentido a tudo o que tive que passar nestes últimos tempos. Não os trocava por nenhum prémio atribuído por esta Ministra. Estas preciosidades são-me atribuídas por aqueles para quem trabalhei. Aqueles a quem dediquei 36 anos da minha vida.
Obrigada a todos os jovens (alguns já bem adultos hoje) pelos bons momentos que eu vivi enquanto professora de Física e Química.

A todos deixo o poema que hoje ofereci a cada um dos alunos do 8º E

Jovem

Conserva
Anos-luz de idealismo
Dentro de ti.
Pensa mesmo
Que o mundo tem conserto
Que tudo vai dar certo.
Uma mole de irreverência
Responsável... controlada...
Com prudência...
Uns milímetros de contestação
Justificada… discutida
Com argumentação...
Muitos volts de alegria de viver
Segundo a segundo
Toda a vida... todo o ser...
Toneladas de amor
De capacidade para amar
Os outros, as coisas, o saber...
Gigacoulombs de responsabilidade
De que te orgulhes...
De que todos, de ti, tenham vaidade...
Uns quilowatt.hora de humor
Que põem nos lábios um sorriso permanente
Um sorriso com luz, com cor...
Muitos cavalos-vapor de energia
Que te tornem capaz
De enfrentar o dia a dia com paz...
Muitos ohms de optimismo
Para encarares o mundo
Pelo lado bom, com positivismo...
Muitos newtons de honestidade
Com os outros, contigo, com a sociedade...
Uns miligramas de ambição
Comedida, com moderação.
Mais uns ampères de humildade,
E uns litros de frontalidade
Delicada...
Uns joules de coragem
Para dizer não a toda a solicitação
Que conduza a mau porto
A tua viagem...
E faz render a cem por cento
Os dons que possuis.
Não descures os valores destas grandezas.
Controla-os bem
E serás um exemplo
Para qualquer jovem.

Novembro, 2008

Deixo de ser professora, não deixo de ser amiga

Alegria triste

Fico alegre porque saio.
Fico triste porque fujo.

De Lisboa a Bragança…
muita estrada, muito jovem…
muita aula, muita experiência…
muito teste, muita correcção…
… também muita preocupação…

Vivências únicas com jovens…
… de quem fui mãe, irmã, amiga…
com muita garra, com muito gozo…

Os tempos mudaram…
as reformas começaram a chover…
… a cântaros…
a escola que eu amei mudou
… para pior… muito pior…

Barafustei, avisei, escrevi, desisti…

Fui enxovalhada, insultada…
maltratada…
Pelos jovens fui aguentando…
agora… chega…
vou-me embora.

Ficam algumas amizades
e a gratidão de tantos jovens…
aqueles que me escrevem…
que pedem a assinatura nas fitas
quando chega a formatura.

Chegar ao fim acompanhando um grupo de jovens
por todo um ciclo…
Um sonho interrompido…
Saio triste… sem conseguir perdoar
a quem ousou matar o meu prazer na minha profissão.
Essa mágoa não morrerá…

Tenho assistido às exéquias fúnebres do ensino público…
mas gostei demasiado do que fiz
para assistir à sua morte… desculpem…

Fico alegre porque saio.
Fico triste porque fujo.

25 novembro 2008

Esta semana...

... os meus alunos do 8º Ano têm alguns trabalhos na exposição comemorativa do Dia Nacional da Cultura Científica. Como temos estado a dar a luz e o som, os trabalhos visam esses conteúdos programáticos.
O país e a Ministra não merecem o trabalho que uma actividade destas comporta mas os jovens, esses merecem todo o meu trabalho enquanto a reforma não chega.

25 outubro 2008

Continuando com livros

Hoje foi o lançamento do livro “O Ensino Básico vai de mal a pior – uma abordagem pedagógica e científica”. O autor, Carlos Paiva, como é professor, conhece, por dentro, todos os podres do nosso sistema educativo. Apesar de ainda não o ter lido, a apresentação e a leitura da contracapa e do índice, deixaram-me imensamente curiosa. Um livro particularmente interessante para quem está ligado ao ensino mas imensamente útil para quem o não está mas tem interesse em saber o que se passa nas escolas públicas onde andam os seus filhos, netos, sobrinhos,…

Edição e Distribuição - Editorial Minerva.

18 junho 2008

Desabafo de (quase) final de ano lectivo

Contrariamente a Miguel Sousa Tavares, Emídio Rangel, António Ribeiro Ferreira e tantos outros, eu não falo do que não conheço. Por isso posso falar de educação. São 36 anos de vivência diária.
Desde o 25 de Abril que o entusiasmo com que ia para a escola começou a diminuir. Seguiram-se tantas reformas quantas as vezes que o Governo mudou de cor. Não há quem aguente tanta reforma nem quem aceite qualquer tipo de avaliação de qualquer destas reformas. Em nenhuma delas o Ministro da Educação teve qualquer tipo de ligação com o ensino não superior. Curioso, não? Esta Ministra conseguiu ser o pior que a educação já teve. Fez o que não admito que se faça a ninguém – roubou a tantos professores o prazer que tinham em exercer a profissão que escolheram. Hoje, para mim, é penoso ir trabalhar. Apesar de ter sido provida como professora titular, não posso aceitar a profunda arbitrariedade com que esse concurso decorreu nem o facto de me terem “deitado ao lixo” vinte e muitos anos de carreira onde exerci todo o tipo de cargos. E se não lhe contassem para nada os anos em que foi Ministra? Gostava? Aceitava sem mais?
Neste momento não sou professora tal como eu entendo a profissão. Sou transmissora de toneladas de conteúdos programáticos. Tive este ano que, em pouco mais de 60 segmentos de 45 minutos, dar um programa que demoraria, pelo menos 100 e até a última aula foi toda aproveitada para cumprir o programa. Nestas condições, a parte prática teve que ser prejudicada. É bom de ver que miúdos do 7º ano, demoram muito mais tempo a realizar as experiências do que eu. E o programa é para ser cumprido. Há que dar a correr. É evidente que nada é consolidado e a avaliação tem que ter isso em conta.
Numa idade em que os miúdos estariam predispostos a aderir à Ciência, são bombardeados com conteúdos programáticos dados à pressão. E, além das Ciências Físico-Químicas, têm mais doze disciplinas. Sim. Os miúdos têm 13 (treze) disciplinas. A mochila dos miúdos tem um peso inaceitável.

“Não há milagres” – os milagres podem ser construídos Sra. Ministra.
“Para aprender é mesmo preciso estudar” – é verdade Sra. Ministra mas ter que cumprir metas de sucesso não leva a isso.
“Para melhorar os resultados é mesmo preciso trabalhar mais... - perfeitamente de acordo Sra. Ministra.

"... e o que os resultados revelam é que têm sido anos de trabalho persistente” – os resultados não revelam isso apesar de estarem a ser anos de trabalho acrescido. Mas o trabalho persistente é com burocracias, com preenchimento de papelada e mais papelada, com leitura de legislação que chega a toda a hora, com reuniões, com grelhas e mais grelhas, com preparação de Actividades de Apoio aos Alunos a que os mesmos não comparecem, com a resolução de problemas disciplinares, com a avaliação dos professores, com a implementação da nova gestão das escolas, com tanta e tanta coisa que de nada serve e rouba tempo para o essencial – a preparação das aulas e dos alunos.
Quando se retiram os alunos mais fracos para os Cursos de Educação e Formação e Cursos Profissionais, se estipulam metas de sucesso e se elaboram exames de uma facilidade escandalosa (dito pelos alunos), consegue-se o milagre de que este Governo se orgulha. As estatísticas são correctas mas a ignorância é cada vez maior. Estão a qualificar-se milhares de analfabetos ou, politicamente falando, iliterados.
A Sra. Ministra está no bom caminho. Pode conseguir o milagre do sucesso total. Basta que decrete a meta de 100% de sucesso.
Já não é para mim. Vou-me embora. Nunca pensei acabar desta maneira a minha carreira profissional. Mas ficar era masoquismo. Há mais vida para além disto.

22 abril 2008

Há atitudes que me fazem concluir que valeu a pena

Esta equipa governamental da Educação, que não me merece qualquer crédito, vai atribuir, pela segunda vez os prémios Nacional de Professores, Carreira, Integração, Inovação, Liderança. Começo por discordar desta iniciativa. O professor que dá o seu melhor para o sucesso dos seus alunos, enquanto alunos e futuros cidadãos, não faz mais do que a sua obrigação. O que eu gostava era de ver reconhecido o meu trabalho pelos meus alunos, pais e concidadãos.
Os critérios para a atribuição dos referidos prémios também se me afiguram obscuros. Desta equipa não quero nenhum prémio. Dela e dos sindicatos quero distância e, por isso, vou pedir a reforma antecipada com penalização. Se eu pudesse alterar os programas e tivesse liberdade para aplicar aos alunos prevaricadores as penalizações pedagógicas adequadas e atempadamente sem burocracias, gostaria de levar até ao fim a carreira que escolhi no início da década de 70 e a que dediquei os melhores anos da minha vida com prejuízo pessoal, das minhas filhas e, agora, dos meus netos. Infelizmente cheguei à conclusão que o Governo, os Pais e os meus concidadãos não merecem mais o meu esforço. Continuar a ser diariamente maltratada, seria puro masoquismo. Há mais vida prara além da escola e do dinheiro. Quero paz. Quero ajudar as minhas filhas e ver crescer os meus netos. Quero ter fins-de-semana como toda a gente. Quero dedicar-me a tanta coisa que me dá prazer.
Não pretendo que, quem não esteja ligado à educação, entenda o que eu digo. Disso eu já desisti. Só quem vive o dia a dia de uma escola sabe o quão difícil, trabalhosa e ingrata é esta profissão. Pede-se quantidade, não qualidade. Pede que se dê em 70 horas conteúdos que precisaraiam de 100 horas. Isto não é ensinar, é despejar conhecimentos.

Não perdoo a esta equipa ministerial o ter-me roubado o prazer que eu tinha em exercer a profissão que abracei. Isto não se faz a ninguém.
Mas os prémios que gostaria de receber têm, felizmente, chegado. Ontem recebi um mail cuja mensagem aqui deixo:


"Boa tarde professora,
Não sei se ainda tem esta conta de e-mail activa, mas espero que sim. Eu sou o seu antigo aluno Eduardo xxxxxx, fui seu aluno de Química no ano lectivo de 2004/2005. Não sei se ainda se lembra de mim. Eu estou a acabar o meu curso na faculdade, estou já no ultimo ano e sou finalista. Como tal, temos a tradição de assinar as fitas e eu gostava que a professora me assinasse a fita, uma vez que a considero a melhor professora que tive até hoje, pois sempre acreditou em mim e fez todos os possíveis para me ensinar, não só a matéria correspondente a sua disciplina, mas também a ser um homem decente. Para além de excelente professora, foi também uma grande amiga, que é algo que muitos professores não são e por isso gostava que me desse a honra de me assinar a fita. A minha queima das fitas é já esta semana e tenho de ter as fitas no dia 27, por isso peço resposta a este e-mail o mais rápido possível. Caso a professora não possa assinar-me as fitas antes dessa data, não há problema; assina depois pois o que conta para mim é que a fita seja assinada, independentemente da data. Gostava também de lhe pedir um favor. Não sei se ainda continua a dar aulas na Escola do Padrão da Légua, mas se sim, agradecia se pudesse falar com a professora Lurdes xxxxxxx, que lecciona Biologia, pois gostava que ela também me assinasse as fitas. Peço desculpa pelo incómodo e espero atentamente uma resposta.

Beijos e abraços,
do seu antigo aluno e amigo,
Eduardo xxxxxxx"


Por mimos como este, que não me têm faltado, eu tenho de concluir que, apesar de ter comido o pão que o diabo amassou, valeu a pena. Desculpem ter posto a modéstia na gaveta mas até fiquei com um nó na garganta quando recebi esta ternura...

08 março 2008

Marcha da indignação

Neste dia 8 de Março saúdo todos os meus colegas que mostraram, em Lisboa, que Maria de Lurdes Rodrigues, nestes anos de Governo. fez uma coisa boa - uniu os professores.
Por motivos de ordem pessoal não me pude deslocar a Lisboa mas o meu espírito esteve lá.

A Ministra, na SIC, desbobinou a cassete do costume como se nada tivesse acontecido. Voltou a passar a mensagem que 100.000 professores são burros porque não entendem o DR 2/2008 e ela é a inteligente que quer o melhor para a Educação.
É mau demais para comentar...

O Artigo 5.º do DL 240/2001 que define o perfil do professor diz:
No exercício das suas funções, os titulares dos cargos previstos no presente diploma estão exclusivamente ao serviço do interesse público, devendo observar no exercício das suas funções os valores fundamentais e princípios da actividade administrativa consagrados na Constituição e na lei, designadamente os da legalidade, justiça e imparcialidade, competência, responsabilidade, proporcionalidade, transparência e boa fé.

Pena que este artigo não conste do perfil dos políticos!

24 fevereiro 2008

Falta de educação da Ministra da Educação

Este mês a ministra da educação foi à Assembleia da República e alguns deputados do PS questionaram-na sobre algumas das suas políticas da educação.Confrontada com essas dúvidas o que faz a ministra não responde mas acusa os deputados de, ao colocarem dúvidas, estarem a dar voz aos "professorzecos"...

Esta notícia foi publicada no Público, mas passou praticamente despercebida, divulguem-na para que se perceba o calibre desta ministra.

http://educar.files.wordpress.com/2008/01/ps.jpg

21 fevereiro 2008

Complexidade do simplex


(clique para poder ler)

É assim que se avaliam os professores. Nada mais simples. E é para implementar este ano. "Na educação não temos tempo a perder" - disse o PM. É preciso fazer tudo já. Mal. Mas já.

19 fevereiro 2008

Lei 3/2008 de 18 de Janeiro

Artº 22
2 – Sempre que um aluno, independentemente da natureza das faltas atinja um número total …, ou, tratando-se exclusivamente de faltas injustificadas, … o dobro de tempos semanais, por disciplina, …, deve realizar-se, logo que avaliados os efeitos da aplicação das medidas correctivas referidas no número anterior (convocar aos Pais ou comunicar à Comissão de Protecção de Crianças e jovens), uma prova de recuperação, na disciplina ou disciplinas em que ultrapassou aquele limite…
3 – Quando o aluno não obtém aprovação na prova referida no número anterior, o conselho de turma pondera a justificação ou injustificação das faltas dadas, … podendo determinar:
a) o cumprimento de um plano de acompanhamento especial e a consequente realização de uma nova prova.

Quer isto dizer que o falta “porque sim” e castiga-se o professor obrigando-o a elaborar e corrigir uma prova para esse aluno. O aluno que faltou não sabe nada para “obter aprovação” na dita prova. Castiga-se novamente o professor obrigando-o a elaborar um plano de acompanhamento especial e a elaboração e correcção de nova prova.
A lei nada diz sobre uma nova não aprovação na nova prova. Será para continuar assim até às férias do professor? E se muitos alunos forem faltosos, o professor passa a vida a elaborar e corrigir provas. Prejudicam-se os cumpridores.

A isto, esta equipa ministerial chama educação…

18 fevereiro 2008

40 portugueses felizes neste momento

Os 40 professores socialistas que reuniram com Sócrates estão felizes com as palavras ditas, há pouco, pelo PM na SIC.
Demagogia pura de quem não faz a mais remota ideia do que passa nas escolas. A última vez que "viveu" uma escola, esta não era nada (absolutamente nada) do que é hoje.
Talvez um dia destes tenha tempo para comentar este logro.

02 janeiro 2008

Valha-nos Santo António!

Neste começo de ano, eu e tantos portugueses gostaríamos que os nossos governantes tivessem mais juízo. Mas Deus e os Seus Santos assim não o quiseram. As idiotices já começaram. Só falo de uma delas. Porque lhe achei piada. Não tenciono perder tempo com esta gente.
Maria de Lourdes Rodrigues não está preocupada com o sucesso educativo, nem com o logro que está a ser a implementação das Novas Oportunidades, nem com a enorme desmotivação que ela própria criou na classe docente, nem com a aberração que foi/é o acesso a professor titular, nem com a violência nas escolas, nem com as condições físicas das mesmas, nem com os diminutos conhecimentos com que os alunos terminam os seus estudos, nem com a estupidez que são os programas curriculares, nem com tanta e tanta coisa que vai muito mal na Educação. A preocupação desta senhora é com o nome das escolas.
Questionei-me. Será causa de tanta miséria na educação uma escola ter um nome de um santo? Causará traumas à comunidade em que se insere essa escola? Ou aos próprios alunos? Trará problemas para as contas públicas? E que fazer com a escola Padre Benjamim Salgado ou Padre Martins Capela? Não são santos mas são padres. Até podem vir a ser santos... E a Escola da Sé, como fica?
Apesar de tantas dúvidas, encontrei a justificação. Correia de Campos precisa dos santos todos para o novo hospital da capital que ele já anunciou com pompa e circunstância, como é da praxe. O Hospital de Todos os Santos.
Mas não temos com que nos preocupar. A Escola de S. Pedro será sempre a Escola de S. Pedro, a de S. Pedro da Cova será sempre a de S. Pedro da Cova e a de Santa Maria Maior será sempre a de Santa Maria Maior, apenas como exemplos.
Lembrei-me logo dos tempos do PREC em que a ponte Salazar foi renomeada como se Salazar deixasse de fazer parte da nossa história por isso e não tivesse sido no tempo dele que a dita ponte foi construída.
Valha-nos Santo António!

27 novembro 2007

Os futuros políticos deste país



No dia 10 de Novembro foi a abertura oficial das comemorações do Ano Internacional do Planeta Terra, 2008, proclamado pela Assembleia-geral das Nações Unidas com o objectivo de promover o conhecimento sobre o potencial das Ciências da Terra. No dia 24 de Novembro comemorou-se o Dia Nacional da Cultura Científica, proclamado pelo Ministério da Ciência e da Tecnologia em 1997, em homenagem a Rómulo de Carvalho, no 90º aniversário do seu nascimento.Para comemorar estas duas datas, a Área Disciplinar de Ciências Físico-Químicas, da escola a que pertenço, organizou uma exposição que decorre entre os dias 22 e 29 de Novembro. Como, no 7º ano, estamos a dar os planeta, e o Planeta Terra, único com água no estado líquido, pedi aos miúdos para trazerem provérbios ou ditos populares em que aparecesse a palavra água para figurarem na exposição com o nome de quem fizesse essa recolha. Aconselhei-os a perguntar aos avós ou outras pessoas de idade, que melhor conhecem esses ditos. Alguns nada fizeram, a maioria trouxe 3 ou 4 provérbios mas houve uma meia dúzia que trouxe folhas A4 cheia deles. Um dos alunos apresentou-me 42 provérbios. Passados a computador, com cores. Um belo trabalho de pesquisa. Para que se deliciem aqui ficam alguns dos provérbios que este aluno me entregou:

  1. A água da minha vizinha é sempre melhor que a minha
Quem não tem água caça com gato
  • A água dada não se olha o dente
  • A água não faz o monge
  • A água faz a força
  • Casa assaltada, águas na porta
  • Em casa de ferreiro, espeto de água
  • Água velha não aprende línguas
  • Cada água no seu galho
  • De Espanha, nem bom vento nem boa água
  • Devagar se vai à água
  • De pequenino se torce a água
  • Deus escreve certo por águas tortas
  • Em terra de cegos, quem tem um olho é água
  • Entre marido e mulher, não se mete a água
  • Há males que vêm por água
  • Ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de água
  • A união faz a água
  • Quem água ama, bonita lhe parece
  • Longe dos olhos, longe da água
  • Mais vale água que nunca
  • Água prevenida vale por dois
  • Três foi a água que Deus fez
  • Sorte ao jogo, água no amor
  • Quem vê água não vê corações
  • Quem corre por água não cansa
  • Quem avisa, água é
  • Pela água morre o peixe
  • Conseguiram ler até aqui? Óptimo. Devem ter os olhos rasos de água. Quando os provérbios não tinham a palavra-chave, ele “metia água”. Engenhoso, não?
    Por favor não digam nada à Maria de Lourdes Rodrigues. Se ela sabe que um aluno meu fez este TPC, a culpa ainda é minha e os pais da criança ainda me fazem uma espera... Confio em vocês.

    26 novembro 2007

    Deus nos livre

    Entre 1996 e 1999, leccionei Física e Química dos 10º e 11º anos e Química do 12º ano a uma turma daquelas que os professores, com sorte, apanham uma vez na vida. Rapazes e raparigas trabalhadores, vivos, bons colegas, amigos, com projectos de vida, educados e com vontade de aprender. Estas três últimas características foram banidas das escolas, com uma ou outra honrosas excepções. Entre os alunos desta turma havia um que, desde o 10º ano, me deu nas vistas pela sua postura. Logo no início me disse que, desde pequeno, queria ser médico. Em 1999, esse jovem não entrou em Medicina por décimas. Entrou em Enfermagem. Em 2000, já com o primeiro ano de enfermagem feito, voltou à Escola Secundária para fazer de novo os exames. É que a média dos exames nacionais é como um iogurte. Tem um prazo de validade muito curto. No início de Março veio a minha casa buscar material para preparar os exames. E voltou em 2001. E em 2002. E em 2003. E em 2004. Chegou e ter 20 a Química mas a Biologia não ajudou. Concluiu o curso de Enfermagem. Entrou em Veterinária e, quando estava no segundo ano, conseguiu finalmente realizar o seu sonho. Entrou em Medicina. Isto é perseverança. Isto é lutar por um sonho. A este médico entregava a minha vida de olhos fechados.
    Um dia esse aluno, com quem ainda hoje mantenho contacto, disse-me que achava que a entrada em Medicina não deveria estar apenas dependente de médias. Aliás, dizia ele, os melhores alunos são, numa maioria significativa, os marrões que manifestam maiores deficiências nas relações humanas. Deveria haver provas que testassem as qualidades humanas dos candidatos.

    Infelizmente não é. Os médicos são, na sua maioria, desumanos tendo em conta que lidam com seres humanos fragilizados. Todos temos histórias tristes para contar.
    Mas testar qualidades humanas iria permitir a entrada em Medicina de alunos com notas mais baixas e, para a classe médica, isso era desprestigiante. Já houve, em 2004, uma tentativa de realizar uma prova, aliás excelentemente bem feita, para ser utilizada na selecção dos alunos para o curso. Na testagem dessa prova, as notas foram tão baixas que nunca foi avante essa ideia. Infelizmente.
    Os médicos estão carregados de direitos mas, muitas vezes, esquecem-se de que também têm deveres. Principalmente o de tratar o doente como um ser humano com sentimentos.
    Lembro-me de ser miúda e ouvir o meu Pai, que era radiologista, contar a história de um homem que dizia “Eu vou ao médico porque os médicos têm que viver. A seguir vou comprar os medicamentos porque o farmacêutico também precisa de viver. Depois deito os medicamentos fora porque eu também quero viver”
    Deus nos livre de precisar dos médicos e de ir parar a um hospital sem uma cunha.

    01 novembro 2007

    O Nijinsky escapou à licenciatura

    Hoje estou particularmente irritada. Para além da tendinite nos pulsos, que teima em não me dar tréguas, acordei com a voz de Valter Lemos. Haverá pior acordar que este? Depois li um jornal. Mais Valter Lemos acompanhado de Maria de Lurdes Rodrigues. Nas notícias da uma, mais Valter Lemos. Está a ser superior às minhas forças. Valter Lemos já é um desastre calado. A falar é de deixar os nervos em franja. Vou dormir a sesta para não ouvir mais nada.
    Falam eles do novo estatuto do aluno do ensino não superior. Outro desastre. Tanto batalharam contra a falta de assiduidade dos professores! Agora incentivam a dos alunos. É assim que se educa? Não deveriam os jovens aprender a marcar a sua presença diária no seu posto de trabalho - a escola? Considero uma atitude particularmente deseducativa.
    O facilitismo está na crista da onda. Isso lembrou-me uma crónica que escrevi, publicada em Outubro de 2004, e cujo título era "O Nijinsky escapou à licenciatura". Deixo aqui uns excertos dessa crónica para desabafo meu e para leitura de quem estiver interessado.
    "Perdi completamente o rasto de um colega de curso que tive nos preparatórios de Engenharia na Universidade de Coimbra. Era de ascendência russa e fomos dois bons amigos. Uma excelente pessoa e um óptimo colega. Na casa dos pais do Miguel tal como na dos meus, sempre houve gatos. Um dia ele ofereceu-me um gato siamês, puro, da última ninhada de uma das gatas lá de casa. O bichano já vinha baptizado – Nijinsky. Lembro-me da empregada dos meus pais ter comentado a propósito do nome do bicho: “Ó menina! Nem eu lá vou quanto mais o gato!”.
    ...
    Voltemos ao tempo em que o Nijinsky ficava horas no colo do meu pai. Foi quando o curso de Engenharia passou de seis para cinco anos e quando o ensino começou a descambar e o superior começou a proliferar pelo país. Já era de prever que acabaríamos por ter uma 'faculdade' rua sim, rua não, em cidades, vilas e aldeias, com qualidade cada vez mais duvidosa. “Se não me acautelo, um dia destes dão uma licenciatura ao Nijinsky” – costumava dizer o meu pai. Viu longe. O Nijinsky só não é hoje licenciado porque já morreu. Temos Faculdades e Institutos em tudo quanto é lugarejo, com tudo quanto é professor e, tantas vezes sem quaisquer critérios de qualidade. Só não é licenciado quem não quer. Saber algo depois de licenciado já é outra conversa que, pelos vistos, não preocupa os governantes. Quando uma pessoa tira uma licenciatura em Línguas e Literaturas e diz “Há-des trazer-me o livro”, “Comprastes o que te pedi?” ou “Fará-se o que se puder”, ainda vamos a tempo de fazer alguma coisa?
    ...
    Interessa quantidade. A qualidade é um requisito que já não conta neste país. É preciso licenciados. Muitos. Quanto mais não seja para o desemprego. “O modelo que propomos para Portugal tem em conta as necessidades do país e a situação nos outros países europeus”, disse Maria da Graça Carvalho. E o modelo é claro. Licenciaturas em três anos. Mestrados com mais dois. Ou seja, no mesmo tempo, ou menos, que demorava tirar um curso superior, hoje já se tem o mestrado. Com jeitinho, os meus netos vão sair doutorados com um semestre numa qualquer faculdade. Só me tranquiliza saber que a formação e a cultura não lhes vão faltar.
    ...
    Quando eu me formei, um professor de qualquer grau de ensino, um médico, um advogado, um juiz, um economista, um engenheiro, um político,… eram pessoas com categoria merecedoras de todo o respeito. Uma elite com nível, com valores e com valor. Gente responsável. Profissionais competentes cujo exemplo era de seguir. A massificação do ensino, o abandalhamento da política, a demissão dos pais enquanto educadores, a desvalorização do mérito conduziram-nos ao caos que vivemos hoje. Salvo raras e honrosas excepções, ninguém respeita ninguém porque ninguém se sabe dar ao respeito.
    Aqui há uns tempos, quando ainda tinha uma esperança de que o espírito orientador dos sindicatos fosse o bem do ensino, fui a um dos sindicatos de professores dos milhares que existem hoje. (Desconfio que há professores inscritos em vários sindicatos simultaneamente. Caso contrário, cada sindicato teria apenas meia dúzia de professores associados). Uma dirigente sindical contou-me que apareceu lá um professor para se tornar sócio. Tinha um curso médio tirado num qualquer Instituto duma cidade do Norte do país. A colega explicou-lhe que, embora lamentando, não podia associá-lo nesse sindicato porque só aceitavam licenciados por faculdades. “A mim têm de me aceitar. Tenho um mestrado em Artes em Verga” – disse o professor. Palavras para quê? É enorme o número de portugueses com mestrado em qualquer coisa. Não quer dizer que não haja mestrados sérios. Claro que há. Mas a banalização desse título, com qualidade duvidosa, retirou-lhe valor. Desacreditou-o. É melhor ter uma licenciatura “do antigamente” do que um mestrado de hoje. Como será daqui a uma dezena de anos?"

    08 outubro 2007

    Começa em casa

    Era o nome de uma das minhas crónicas, publicada em Agosto de 2002. Apeteceu-me publicá-la aqui. Quem tiver a educação como uma preocupação e tiver paciência pode avaliar da actualidade do que eu escrevi há mais de 5 anos.

    "Li, há tempos, num jornal diário uma frase de um realismo dramático. “Os professores têm, cada vez mais, à sua frente um conjunto de órfãos de pais vivos.” A formação dos nossos jovens como pessoas, como profissionais e como cidadãos está, em grande parte, na mãos dos educadores. Os educadores por excelência deveriam ser os pais e os professores. Grande responsabilidade para ambos terem nas mãos o desenvolvimento de capacidades, conhecimentos, atitudes e valores nos jovens que serão os homens e as mulheres de amanhã. A família, que devia ser o esteio do jovem, é talvez a instituição básica mais minada. Está em completa desagregação. A tensão da vida de hoje é propícia ao desenvolvimento de conflitos. Não é fácil conseguir disponibilidade para dar atenção, escutar, dialogar. Mas é possível. Sem entendimento e aceitação dos diferentes papeis e funções dos elementos que constituem a família, torna-se difícil o relacionamento entre pais e filhos. A falta de disponibilidade dos pais para darem atenção aos filhos, as famílias monoparentais, os pais divorciados que não sabem gerir com bom senso essa situação, o marido da mãe, a mulher do pai, os meios irmãos,... levam a que, consciente ou inconscientemente, por vezes como uma compensação, se dê às crianças e aos jovens o fruto das conquistas da civilização sem que eles aprendam a dar-lhes o seu real valor.

    Com a falta de tempo, ou a desculpa da falta de tempo, muitos pais demitiram-se das suas funções de educadores por excelência. Depositam os filhos, primeiro no infantário, depois no jardim-de-infância e mais tarde no “adolescentário” para que os professores desempenhem, na totalidade, o papel que em grande parte lhes competia. Tarefa esta que deve começar no berço. Na escola já é tarde para a iniciar. A complexidade da vida dos pais de hoje torna difícil a sua tarefa de acompanhamento dos filhos. Mas não a torna impossível. Assim haja vontade. Tão pouca comunicação humana numa época de tão grande informação difundida! Há muita paternidade/maternidade irresponsável. Ter um filho não é pô-lo no mundo e deixar que o mundo lhe incuta valores, o ensine e o insira na sociedade. É preciso abdicar de muita coisa. É preciso alterar hábitos. É preciso estabelecer prioridades. É preciso impor regras. Pelos filhos e pelos próprios pais já que, mais cedo ou mais tarde, eles vão ser vitimas da falta de atenção que deram aos filhos. Em quase todas as famílias, o pai e a mãe trabalham. Se o tempo é pouco, há que aproveitar muito bem esse pouco. Mas é mais fácil, dá menos trabalho, tomar a atitude comodista de deixar os filhos entregues a si mesmos, pondo-lhes ao dispor toda a espécie de entretenimento sem qualquer critério. E pelo comodismo dos pais está a pôr-se em risco o futuro dos filhos.

    Fala-se agora muito em responsabilizar os pais. Como se faz isso? Com uma repreensão escrita? Um castigo? Uma multa? Uma queixa na polícia? Os governantes enchem a boca com “responsabilizar os pais” mas não dizem como. Considero que os pais ou são responsáveis ou não são e ponto final. Como os professores. Ou são responsáveis ou não são e ponto final. Como os políticos. Como os advogados. Como os empreiteiros... como todo e qualquer profissional deste país. Um país onde grassa a irresponsabilidade. Onde nunca ninguém foi sancionada por não ser responsável. Onde o responsável leva o carimbo de lorpa. Enquanto tivermos a sociedade que temos, não vislumbro solução para o problema. Os jovens de hoje têm os pais na geração do pós 25 de Abril. Uma geração que teve uma educação/formação deficiente. São hoje os jovens adultos cujos filhos têm, na melhor das hipóteses, a formação que eles tiveram.

    Os jovens chegam às mãos dos professores numa etapa da vida que será decisiva para o seu futuro pessoal e profissional. Jovens sedentos de atenção e carinho que, muitas vezes, procuram no professor. Em determinados professores. Porque nem todos os professores, infelizmente, estão dispostos a dar aos alunos tratamento de filhos. Os jovens querem do professor aquilo que as famílias lhes não dão. Muitos professores são, quer queiram ou não, um substituto dos pais. Deviam estar preparados, querer, e ter condições, para exercer mais esse papel. Lidar com jovens nem sempre é fácil mas há professores privilegiados que nasceram com o dom de tornar quase tudo fácil nesse relacionamento. E que se esforçam por pôr a render esse dom que lhes foi concedido.

    É bom que os pais sejam exigentes com a escola. Ela deve cumprir convenientemente o seu papel. Mas a escola não é tudo. 'Quem julgar que a escola resolve todos os problemas da sociedade moderna, comete um erro enorme. Enorme. A escola é apenas um dos elementos com que podemos contar, e como há escolas boas, há escolas más, jornais bons e maus, televisões boas e más. Não se queira, quando há um problema, responsabilizar a escola. E os pais?' ( Marçal Grilo). Os pais têm que ter um papel na educação dos seus filhos. Não têm moral para exigir da escola quando não são exigentes consigo próprios enquanto pais.

    Que bom seria se houvesse diálogo entre pais e filhos! Bom para os filhos, para os pais e para os professores. E, mais tarde, para a sociedade e para o país. A maioria dos jovens que têm uma família que os ame, e acompanhe o seu desenvolvimento, têm poucos problemas na escolaridade. O sucesso escolar começa em casa."