17 março 2009

Cartas a Lucílio

Livro I (Cartas 1 a 12)
1
“Procede deste modo, caro Lucílio: reclama o direito de dispores de ti, concentra e aproveita todo o tempo que até agora te era roubado, te era subtraído, que te fugia das mãos. Convence-te de que as coisas são tal como as descrevo: uma parte do tempo é-nos tomada, outra parte vai-se sem darmos por isso, outra deixamo-la escapar. Mas o pior de tudo é o tempo desperdiçado por negligência. Se bem reparares, durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente.
Podes indicar-me alguém que dê o justo valor ao tempo, aproveite bem o seu dia e pense que diariamente morre um pouco? É um erro imaginar que a morte está à nossa frente: grande parte dela já pertence ao passado, toda a nossa vida pretérita é já do domínio da morte!
Procede, portanto, meu caro Lucílio, conforme dizes: preenche todas as tuas horas! Se tomares nas mãos o dia de hoje conseguirás depender menos do dia de amanhã. De adiamento em adiamento, a vida vai-se passando.
Nada nos pertence, Lucílio, só o tempo é mesmo nosso. A natureza concedeu-nos a posse desta coisa transitória e evanescente da qual quem quer que seja nos pode expulsar. É tão grande a insensatez dos homens que aceitam prestar contas de tudo quanto – mau grado o seu valor mínimo, ou nulo, e pelo menos certamente recuperável – lhes é emprestado, mas ninguém se julga na obrigação de justificar o tempo que recebeu, apesar de este ser o único bem que, por maior que seja a nossa gratidão, nunca podemos restituir.
Talvez te apeteça perguntar como procedo eu, que te dou todos estes preceitos. Dir-te-ei com franqueza: como alguém que vive bem, mas sem esbanjamento. Tenho as minhas contas em dia! Não te posso dizer que nunca perco tempo, mas sei dizer-te quanto, porquê e de que modo o perco. Posso prestar contas da minha pobreza. A mim, porém, sucede-me o mesmo que a muitos que, sem culpa própria, ficaram reduzidos à miséria: todos perdoam mas ninguém ajuda.
Que mais há a dizer? Não considero pobre aquele a quem basta o poucochinho que tem. Prefiro, contudo, que tu preserves os teus bens e que o comeces a fazer quanto antes. Conforme diziam os nossos maiores, ‘já vem tarde a poupança quando o vinho está no fundo.’ É que o que fica no fundo, além de ser muito pouco, são apenas as borras.
Adeus”


Bela lição nos vem do tempo do Império Romano, pelas palavras de Lúcio Aneu Séneca!

6 comentários:

Gaivota Maria disse...

O Zezito nunca deve ter ouvido de romanos e muito menos de Séneca. Aposto que ele comprou a 4ª classe à professora, como a minha fazia: com cigarros

um Ar de disse...

Bem preciso, de boas lições sobre o tempo!...
.
[Beijo...@]

heretico disse...

-... e as borras começam a azedar!

restam-nos os clássicos!
apreciei saber.

beijos

Graça Pimentel disse...

Gaivota Maria
Se o Zezito nunca foi às aulas, também não vem aqui. E continuará a ignorar Séneca...
Mas, como é chico-esperto comprou a quarta clase, o secundário, a licenciatura, o mestrado,... mas não foi com cigarros. Quem vendeu, queria mais que uma "passa"...

Beijinho

Graça Pimentel disse...

Um ar de...
Muita gente precisava de uma boa lição sobre o tempo e esta é uma delas.
Tudo bom contigo?

beijinho

Graça Pimentel disse...

heretico
É mesmo... as borras começam a azedar...
Esta lição sobre o tempo vem do tempo de Cristo e... nada a acrescentar.

Beijo