22 abril 2008

Há atitudes que me fazem concluir que valeu a pena

Esta equipa governamental da Educação, que não me merece qualquer crédito, vai atribuir, pela segunda vez os prémios Nacional de Professores, Carreira, Integração, Inovação, Liderança. Começo por discordar desta iniciativa. O professor que dá o seu melhor para o sucesso dos seus alunos, enquanto alunos e futuros cidadãos, não faz mais do que a sua obrigação. O que eu gostava era de ver reconhecido o meu trabalho pelos meus alunos, pais e concidadãos.
Os critérios para a atribuição dos referidos prémios também se me afiguram obscuros. Desta equipa não quero nenhum prémio. Dela e dos sindicatos quero distância e, por isso, vou pedir a reforma antecipada com penalização. Se eu pudesse alterar os programas e tivesse liberdade para aplicar aos alunos prevaricadores as penalizações pedagógicas adequadas e atempadamente sem burocracias, gostaria de levar até ao fim a carreira que escolhi no início da década de 70 e a que dediquei os melhores anos da minha vida com prejuízo pessoal, das minhas filhas e, agora, dos meus netos. Infelizmente cheguei à conclusão que o Governo, os Pais e os meus concidadãos não merecem mais o meu esforço. Continuar a ser diariamente maltratada, seria puro masoquismo. Há mais vida prara além da escola e do dinheiro. Quero paz. Quero ajudar as minhas filhas e ver crescer os meus netos. Quero ter fins-de-semana como toda a gente. Quero dedicar-me a tanta coisa que me dá prazer.
Não pretendo que, quem não esteja ligado à educação, entenda o que eu digo. Disso eu já desisti. Só quem vive o dia a dia de uma escola sabe o quão difícil, trabalhosa e ingrata é esta profissão. Pede-se quantidade, não qualidade. Pede que se dê em 70 horas conteúdos que precisaraiam de 100 horas. Isto não é ensinar, é despejar conhecimentos.

Não perdoo a esta equipa ministerial o ter-me roubado o prazer que eu tinha em exercer a profissão que abracei. Isto não se faz a ninguém.
Mas os prémios que gostaria de receber têm, felizmente, chegado. Ontem recebi um mail cuja mensagem aqui deixo:


"Boa tarde professora,
Não sei se ainda tem esta conta de e-mail activa, mas espero que sim. Eu sou o seu antigo aluno Eduardo xxxxxx, fui seu aluno de Química no ano lectivo de 2004/2005. Não sei se ainda se lembra de mim. Eu estou a acabar o meu curso na faculdade, estou já no ultimo ano e sou finalista. Como tal, temos a tradição de assinar as fitas e eu gostava que a professora me assinasse a fita, uma vez que a considero a melhor professora que tive até hoje, pois sempre acreditou em mim e fez todos os possíveis para me ensinar, não só a matéria correspondente a sua disciplina, mas também a ser um homem decente. Para além de excelente professora, foi também uma grande amiga, que é algo que muitos professores não são e por isso gostava que me desse a honra de me assinar a fita. A minha queima das fitas é já esta semana e tenho de ter as fitas no dia 27, por isso peço resposta a este e-mail o mais rápido possível. Caso a professora não possa assinar-me as fitas antes dessa data, não há problema; assina depois pois o que conta para mim é que a fita seja assinada, independentemente da data. Gostava também de lhe pedir um favor. Não sei se ainda continua a dar aulas na Escola do Padrão da Légua, mas se sim, agradecia se pudesse falar com a professora Lurdes xxxxxxx, que lecciona Biologia, pois gostava que ela também me assinasse as fitas. Peço desculpa pelo incómodo e espero atentamente uma resposta.

Beijos e abraços,
do seu antigo aluno e amigo,
Eduardo xxxxxxx"


Por mimos como este, que não me têm faltado, eu tenho de concluir que, apesar de ter comido o pão que o diabo amassou, valeu a pena. Desculpem ter posto a modéstia na gaveta mas até fiquei com um nó na garganta quando recebi esta ternura...

12 comentários:

Ka disse...

Graça,

Quem tem o prazer de te conhecer, como é o meu caso, sabe que um mail destes não pode ser surpresa nenhuma. Tu não és uma pessoa que esteja na vida com uma atitude passiva e isso faz toda a diferença. Tu transpiras esta forma de estar até nos mais pequenos pormenores e isso as pessoas notam, como é o caso dos teus alunos.

De qualquer forma parabéns por esse mail recebido!

Beijinhos

Se bem que te tenha muita amizade este comentário foi totalmente imparcial :)

GP disse...

Obrigada, ka, pela tua amizade.

Tenho a consciência tranquila de, nestes anos todos de docência, ter feito pelos meus alunos o que de melhor podia. Deixa-me também dizer que o fiz por prazer pessoal...
É uma vida com muitas provas de reconhecimento por parte dos alunos e apenas por parte deles.
É deles que vou sentir a falta.

Beijinho

Tinta Azul disse...

Querida GP,
Ainda tenho os olhos rasos de água.
Mereces este email.
Mereces muito mais... as saudades que eu tenho de trabalhar contigo, nem imaginas...
Beijo muito grande :)

mariadosol disse...

Fizeste muito bem em mostrar. Fazes bem ter este orgulho...
um beijo comovido

um Ar de disse...

Belos tempos!
Outros...

Que querido Eduardo e que boa professora ele escolheu!


[BEIJO...]

GP disse...

tinta_azul
Também tenho muitas saudades de trabalhar contigo.
Estes mimos são a minha compensação.

Beijinho

GP disse...

mariadosol
Na minha vida tenho, como toda a gente, coisas de que me orgulho. A minha atitude perante a profissão é uma delas e os Eduardos que me têm dado estas alegrias, mostram-me que tenho razão em o ter.

Beijinho

GP disse...

um ar de...
O Eduardo não me escolheu nem eu o escolhi a ele. O acaso pôs-nos no mesmo barco...

Beijinho

magpinto disse...

"... pois sempre acreditou em mim e fez todos os possíveis para me ensinar, não só a matéria correspondente a sua disciplina, mas também a ser um homem decente..."

Daria boa parte da minha vida por ouvir alguém falar assim de mim. Parabéns, Graça. Mesmo que não tivesse sucedido ou venha a suceder mais nada na tua vida (e seguramente aconteceu e virá a acontecer), ficou aqui gravado o quanto valeu a pena teres vivido.

GP disse...

Obrigada, magpinto
É extremamente gratificante saber que ajudei a formar alguns dos bons cidadãos portugueses. Eu semeei toda a vida. Quando vejo as sementes que eu lancei darem fruto, fico com uma alegria imensa e com a sensação do dever cumprido. E isso tem, para mim, um valor incalculável.

Beijinho

Anna disse...

Mereces sim!
A DREA também pediu à minha escola que me convencesse a concorrer...para mim foi um insulto.
Também são os meus alunos a minha recompensa. Isso basta-me. Se visses o meu MSN.
Mas sei com é doloroso...

Graça Pimentel disse...

Obrigada, anna!
É essa satisfação que nos faz pensar que o nosso trabalho foi elogiado pelos directos destinatários dele.
Saber que ajudámos um jovem a ser um homem e um cidadão de verdade é de encher o coração de alegria.

Um beijo